quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

As Viagens e as Descobertas




Após alguns dias em Aveiro, Damien conheceu algumas pessoas na taverna da cidade, uns visitantes da Guarda anunciavam pelas ruas que iriam realizar um Torneio de Justas, onde o vencedor seria recompensado. Isso despertou a atenção do Mondragón, seria bom um dinheiro fácil. Ele e a sua irmã partiram para Sul, tentando obter alguma carne e outros alimentos. 

Cidade após cidade, Damien foi viajando, Coimbra, Leiria, Santarém, Montemor, Elvas e mais tarde Viseu e Guarda. O seu discurso em Português era fraco, apenas sabia umas palavras e tentava entender umas frases que ia ouvindo. Mesmo assim, se queria fazer passar-se por Português necessitava de uma língua fluente e rica, o que não era fácil. 

De volta ao Condado de Coimbra, já na Guarda, recebe a notícia que o Torneio de Justas fora cancelado, um desperdício de 15 cruzados no seu ponto de vista. Preparava-se então para mais uma viagem, novamente em direção ao Sul à procura de mais alimentos e outros materiais. Em Leiria, enquanto caminhava pela cidade, encontra numa rua mais estreita uma pequena loja. Damien estava curioso e decidiu aproximar-se e entrar, não viu ninguém lá dentro, apenas lá estavam ervas, frascos e livros. Nenhum produto daquela loja lhe interessava mas talvez encontrasse algum dinheiro das vendas. O dia estava ventoso e calmo, ouvia-se o ruído do vento e nada mais… procurando por algo que seja útil, vê num sítio mais escondido uns livros e amuletos que pareciam ser de feitiçaria, as bruxas eram queimadas vivas mas continuavam a existir, o medo e a morte não era suficiente para que desaparecessem… entretanto, Damien ouve um barulho e vira-se, rapidamente cai no chão inconsciente…

Acorda preso com cordas numa cave e uma dor de cabeça. Não conseguia ver muito, a cave era escuro apenas com uns raios de luz de uma pequena janela. Tenta desamarrar-se do poste mas as cordas estavam apertadas demais, ia tentando enquanto não aparecia ninguém, não sabia quem é que o tinha prendido ou o porquê disso. Após algumas horas, entra uma pessoa, Damien não consegue ver a cara, apenas nota pelas vestes que é uma mulher. 

- Quem és? – Perguntou ela.
- Damien Mondrágon. ¿Y tú?
- Espanhol… Encontrei isto nos teus bolsos… - Diz mostrando uma cruz aristotélica. – Viste demais, não te posso deixar ir embora.
- Comprendo, pero ya no soy lo aristotélico que era. Sólo guardo la cruz como recuerdo. – Avisa.
- Não posso correr riscos, mas diz-me porque vieste há minha loja?
- Curiosidade apenas. – Mente para não piorar a situação.

Ouve-se uma voz jovem…

- ¿Hermano?
- Quem é? – Murmura baixo a mulher.
- Mi hermana. – Diz baixando a cabeça.
- Porque vieram para Portugal? – Questiona.
- Por necesidad, hemos huido. – Respondeu. 

A mulher fica com pena de ter de matar alguém e deixar assim uma menina sozinha no mundo como ela ficou quando era criança. Com a adaga desamarra Damien, ele vê finalmente o rosto dela… olhos verdes com cabelos negros que apesar de jovens mostravam já uma vida cheia de acontecimentos marcantes.

Os dois sobem e encontram Sarah a observar a pequena e poeirenta loja. Damien abraça a sua irmã e diz para ela esperar um pouco enquanto conversava com a morena, Sarah foi vendo as grandes variedades de ervas que havia por ali e ele foi com a mulher para uma pequena sala ao lado. Os dois contam as suas histórias e o tempo vai passando. Eduarda, a morena de olhos verdes, perguntou no fim para onde iriam eles, Damien respondeu:

- Por ahora quédamos en Aveiro… En el futuro no lo sé…
- Bem, se querem ficar por Portugal e parecem portugueses precisam de falar português… Eu posso ensinar-vos. – Disse, sorrindo. 

Damien pensou por segundos e aceitou, de facto, falarem espanhol só chamaria atenções indesejadas…
Os três começaram a passar mais tempo juntos, Eduarda ensinava-os a falar português e a escrever também, Damien tentava aproveitar as horas seguintes para treinar as suas habilidades de combate, apesar de estar em segurança no momento, não sabia o que poderia acontecer a seguir e queria estar preparado. Nesses momentos, Eduarda observava-o… Ela tinha acabado por aproximar-se dele e acabara por ser mais do que uma simples atração mas Damien não sabia. 

Certa noite, quando Sarah já dormia, os dois encontraram-se no sótão. Era uma das noites mais frias daquele Inverno, o vento fazia-se ouvir dentro das casas e as constantes chuvas arrastavam as folhas de um lado para o outro. 

- O telhado não vai aguentar muito tempo. – Disse Eduarda.
- Hm, parece que si. Talvez dos dias. Tentarei arreglar-lo mañana.
- Obrigado Damien, o teu Português já está a ficar muito bom. – Sorri.
- Com uma buena professora, es fácil.

Entretanto ouvem um ruído, como se um frasco caísse no chão e partisse. Damien desembainhou a sua espada e disse que iria verificar e para Eduarda ir ter com a sua irmã.
Damien espreita pela porta que liga a casa à pequena loja… eram guardas e pelos vistos já tinham encontrado as coisas suspeitas que havia. Rapidamente vai até ao quarto e diz às duas para se esconderem, começaram-se a ouvir os passos dos guardas reais cada vez mais perto. Cada guarda examinava cada divisão da casa à procura de pessoas e Damien sabia que eles iriam encontrá-las se não os atraísse para outro sítio. Assim que abre a porta, Damien salta da janela para o chão. O guarda avisa os restantes e partem todos atrás dele que os esperava na entrada. Assim que o primeiro saiu, a sua espada atravessou o peito de um. Apenas restavam mais dois. Damien afastou-se enquanto eles se aproximavam lentamente, naquele caso, o melhor ataque seria a defesa. Um dos guardas atacou-o com rapidez, deslizando a sua espada de cima para baixo, Damien esquiva-se e trespassa-o pela zona abaixo das costelas. O restante tentou aproveitar a situação mas o loiro conseguiu proteger-se com a espada. O pesado armamento dos guardas tornava-os muito lentos e ele aproveitava isso. Por breves segundos, as espadas emitiram ruídos e faíscas, o guarda lentamente se cansava e os seus ataques começavam a ser cada vez mais lentos, num deles, Damien desvia-se da investida e fere-o na perna. O guarda apoia-se com o joelho no chão e o espanhol, à semelhança de um carrasco, desliza a espada cortando-lhe a cabeça.

No final, Damien dirige-se até às duas e avisa-as que amanhã cedo irão sair de lá, para um sítio seguro, pois, mais guardas viriam. Pela madrugada Damien e Sarah foram tratar da compra dos alimentos para a viagem, já no mercado, compraram alguns pães quentes e milhos enquanto Eduarda tratava das suas coisas. 

Quase na rua estreita, Damien começa a ver um fumo negro erguer-se e começa a recear, avisa Sarah para esperar ali por ele que voltaria rápido. Na última curva, Damien vê que o fumo vem da casa de Eduarda e que na entrada estão guardas, rodeados de vários habitantes e uma estaca com o corpo de Eduarda a arder sobre uma fogueira. Vira costas e caminha como se ignorasse o que estava a ver, já não poderia fazer nada por Eduarda por muito que assim o quisesse. Agarra na mão de Sarah e leva-a para a saída da cidade em direção a Aveiro, a sua nova cidade, sem responder às curiosidades da irmã.

À direita a rua estreita com a loja/casa de Eduarda

domingo, 1 de junho de 2014

Um novo Lar



A viagem demorou algum tempo, as marés e ventos incertos dificultaram o trabalho do capitão em levar o barco até ao destino. No dia 22, um Sábado de Março de 1462 (20º aniversário) chegaram a Aveiro, uma cidade pequena, com um mercado pobre, não era comparável às cidades por onde Damien passara mas ele teria que se habituar, o dinheiro que tinha não iria durar para sempre e precisava de coisas a preços acessíveis.

Não sabiam se iriam ficar naquela cidade, então passaram os dias em hospedarias baratas e a conhecer as diferentes zonas, sempre escondidos e discretos. As pessoas eram pouco amigáveis e desconfiadas, os olhares de lados e murmúrios eram constantes, assim como as suas caras carrancudas, não parecia ser uma cidade segura para ambos, eram invasores num círculo fechado.

Aveiro

A Invasão



A viagem durou dias, assim como as batalhas… Os revoltosos triunfaram contra a regência e alteraram as Leis do Reino. A família Mondragón continuava a sua viagem sem saber o que teria acontecido mas não poderiam olhar para trás e voltar, tinham que se encontrar com o Renard e depois decidir o futuro…

Em Carcassone foram de encontro ao velho diplomata. Ele tinha uma casa grande, afastada do centro, com vista para a floresta. Renard não conhecera os filhos mais novos da família, pois à muito que não os visitara. Ordenou para que os seus criados preparem-se quartos para os convidados e chamou Hellen para falar em privado com ela mas Damien decidiu ir com ela, pois era o homem mais velho da família agora. 

O que o velho lhes ia dizer não era fácil, Teo e Pablo morreram ao serviço do Reino pois recusaram a servir as ideias dos amotinados. Hellen e Damien entristeceram e lágrimas começaram a escorrer pelos seus rostos. Em pouco tempo, um filho desaparecera e possivelmente morrera e outro filho e o pai morreram numa batalha, parecia que a família estava condenada à desilusão e à morte. Os dois limparam as lágrimas e continuaram a conversa, não sabiam o que fazer agora, a sua casa estava queimada por terem muitos objetos que se opunham aos ideais da Constituição. Renard disse-lhes que poderiam ficar na casa dele o tempo que quisessem, mas eles não aceitaram. Diziam que cada família deveria ter uma casa, Hellen decidiu levar os seus filhos para Inglaterra para a casa dos avôs onde crescera. 

Os Mondragón ficaram cerca de três semanas na casa do francês, quando partiram, ele deu-lhes as condolências, assim como dinheiro e outros bens pois desejava o melhor para a família do seu velho amigo.

Na saída de Carcassone encontraram uma pessoa deitada no meio da estrada, os dois guardas da família foram ver o que se passava e quando chegaram perto da pessoa, apareceram cinco bandidos atrás da família, encostando facas às suas gargantas. Os guardas espantaram-se por aparecerem tantos assaltantes de uma vez e ficaram receosos em desembainhar as suas espadas… Mas em poucos segundos caíram no chão ensanguentados com um golpe na parte detrás do pescoço feito por uma adaga da pessoa que estava deitada no chão. O bandido desencosta a faca do pescoço de Hellen e ela entrega-lhes um saco de moedas. De seguida, aproxima-se dos dois filhos, sussurra-lhes umas palavras e afasta-se.

Os três fecharam os olhos com um golpe na cabeça e foram levados pelos contratados de Hellen. Num beco pequeno e escuro, atiraram-nos contra a parede e tiraram as suas armas… Os dois pensavam que iriam ter o mesmo destino do seu pai e irmão. Um dos bandidos aproxima-se e disse que não iria demorar muito, nem iria doer… Quando levanta a espada no ar e prepara-se para fazê-la cair sobre Javier é atravessado por uma espada no peito. Os outros rapidamente atacam o homem tapado com barba, mas ele esquiva-se e defende-se com a sua espada. Os dois irmãos ficam temerosos e imóveis e o estranho homem mata os outros dois bandidos.

O misterioso homem retira o capuz… Damien reconhece-o, era o seu irmão Matthew que tinha sido desprezado por seu pai. Ele levou-os com alguma pressa até à cidade mais próxima com porto, lá, procurou por barcos que estivessem prontos a viajar pois Hellen contratara mais mercenários para capturar e matar os seus dois filhos.
 
Matthew contou-lhes que desde que soube da invasão dos liberais, vigiou a sua família. Foi atrás deles até à casa do Renard e lá descobriu toda a verdade. Renard iria casar com Hellen e governaria em Pagcerdà, Matthew descobriu ainda que ele pagara aos liberais e fornecera armas para matar Teo e os seus filhos. O ódio instalava-se em Damien, o ódio pela mãe que traiu a família, o ódio pelo Renard que traiu o velho amigo e o ódio pelos liberais que tentaram matar toda a família Mondragón. 

Matthew decidiu separar a família, era a única maneira de assegurar a segurança de pelo menos um dos filhos. O filho mais velho e Javier viajaram num barco para Norte e Damien e Sarah num barco para Sul…